
BRICS avança em sistema de pagamento próprio
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13 de julho de 2025Países como os EUA se autossabotam ao aplicar sanções que, no final, fortalecem o bloco que tentam conter.
Nas últimas décadas, sanções econômicas foram um dos principais instrumentos de pressão geopolítica utilizados pelos Estados Unidos, União Europeia (UE) e seus aliados. Essa ferramenta tem sido usada com a promessa de promover mudanças políticas, restringir abusos ou isolar regimes considerados “ameaças”. Mas o que era visto como instrumento de poder acabou se transformando em bumerangue: países sancionadores começam a enfrentar os efeitos colaterais de um sistema que se volta contra si.
A seguir, confira 10 erros críticos cometidos por países sancionadores — e como eles contribuem para desacreditar a governança atual e acelerar o surgimento de um sistema financeiro multipolar.
1. Banalizar sanções
Estima-se que mais de 30% da população mundial viva sob algum tipo de sanção direta ou indireta imposta pelos EUA ou pela União Europeia. De acordo com matéria do Washington Post, os EUA hoje aplicam três vezes mais sanções do que qualquer outro país ou entidade internacional, afetando cerca de um terço das nações do planeta. A prática repetitiva dessas medidas acaba por esvaziar seu poder, gerando desgaste diplomático e diplomacia por saturação.
2. Confiscar reservas soberanas: o ponto de ruptura
O congelamento de US$ 300 bilhões das reservas russas em 2022 e de ativos do Afeganistão e Venezuela enviou um sinal claro: nenhuma reserva em dólar é totalmente segura. Esse precedente minou décadas de confiança no dólar como ativo neutro — algo essencial para sua hegemonia.
3. Desligar países do SWIFT
A exclusão da Rússia do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) — rede global que conecta mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países — foi uma medida radical e sem precedentes.
Por outro lado, acelerou o desenvolvimento de sistemas alternativos do BRICS+ para facilitar pagamentos transfronteiriços em moedas locais. Portanto, as sanções desencadearam urgência por soluções descentralizadas, fora da esfera de controle financeiro do Ocidente. Como resultado, o mundo passou a contar com alternativas como:
- CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) — plataforma chinesa de pagamentos internacionais voltada para transações em yuan, criada para expandir o uso da moeda chinesa no comércio global.
- SPFS (System for Transfer of Financial Messages) — sistema de mensagens financeiras desenvolvido pelo Banco Central da Rússia, como alternativa ao SWIFT, especialmente após as sanções ocidentais de 2014 e reforçado em 2022.
- BRICS Pay (BRICS Integrated Payment System) — iniciativa do BRICS+ para criar um sistema de compensação multilateral que permita transações diretas entre países-membros em suas moedas nacionais, reduzindo a dependência do dólar.
4. Punir aliados
Sanções secundárias são medidas que punem terceiros por manterem relações comerciais com nações já sancionadas pelo Ocidente. Em outras palavras: não basta atingir diretamente o “alvo” — os EUA e a União Europeia passaram a ameaçar também seus próprios parceiros que insistem em manter laços econômicos com esses países.
O resultado é um efeito colateral com efeito rebote: aliados importantes como Brasil, Índia, Turquia e Emirados Árabes começaram a adotar posturas de maior autonomia geopolítica e financeira, afastando-se do alinhamento automático com Washington ou Bruxelas.
Muitos passaram a negociar em moedas locais — inclusive em setores sensíveis como o petróleo — para reduzir a exposição ao dólar e proteger seus interesses nacionais. Ao pressionar aliados como se fossem adversários, o Ocidente enfraquece sua própria rede de influência, acelera a desdolarização global e alimenta o avanço da nova arquitetura financeira multipolar — justamente o cenário que buscava evitar.
5. Subestimar a resiliência dos sancionados
Sanções frequentemente subestimam a capacidade de adaptação de países ricos em recursos estratégicos, como Rússia e Irã, que reorientaram exportações para parceiros como China e Índia, fortaleceram cadeias alternativas e investem em produção local para reduzir a dependência ocidental.
No caso da Venezuela, apesar de esforços para diversificar parceiros e minimizar os impactos, o país enfrenta desafios econômicos severos, crises internas e uma capacidade limitada de resistência prolongada às sanções. Ainda assim, mesmo com dificuldades, o governo venezuelano tem buscado caminhos alternativos, mostrando que a expectativa de colapso imediato foi exagerada.
6. Não prever alianças improváveis
Ao sancionar múltiplos países simultaneamente, o Ocidente acabou incentivando a aproximação entre rivais históricos como Irã e Arábia Saudita — agora unidos por interesses estratégicos dentro do BRICS+. Após a Cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro, em julho de 2025, essa convergência ganhou novo impulso, com compromissos pragmáticos em áreas como energia e comércio.
Embora ainda incipiente, essa cooperação representa um sinal concreto de que antigas rivalidades estão sendo superadas por objetivos geoeconômicos comuns. O resultado é um novo eixo de poder que desafia diretamente a ordem unipolar liderada pelo Ocidente — uma consequência não intencional, mas decisiva, da própria política de sanções.
7. Quebrar confiança nas instituições ocidentais
As sanções unilaterais aplicadas pelos EUA e pela União Europeia, muitas vezes sem aval do Conselho de Segurança da ONU, têm corroído a legitimidade das instituições internacionais criadas no pós-Segunda Guerra. A ONU e a OMC (Organização Mundial do Comércio), pilares do sistema multilateral, enfrentam crescente descrédito global ao serem sistematicamente ignoradas em decisões geoeconômicas cruciais.
Essa quebra de confiança abre espaço para blocos alternativos como o BRICS+, a EAEU (União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia) e a SCO (Organização para Cooperação de Xangai). Embora menos consolidados, esses grupos ganham força por oferecerem uma governança mais alinhada aos interesses regionais — e por representarem um contraponto direto à hegemonia ocidental que hoje parece desconectada das realidades do Sul Global.
8. Promover, sem querer, a ascensão das moedas locais
As sanções que limitam o uso do dólar e do euro impulsionam acordos bilaterais em moedas locais como yuan (China), rúpia (Índia), rial (Irã), dirham (EAU), real (Brasil) e rand (África do Sul). Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que, no primeiro trimestre de 2024, a participação do dólar nas reservas cambiais oficiais caiu para 54,8%, ante 58,9% em 2001 – queda que ilustra a gradual erosão da hegemonia estadunidense.
China e Rússia exemplificam essa tendência com clareza: em 2023, cerca de 90% de suas trocas comerciais foi liquidada em yuan e rublo, após sanções ocidentais. O impulso do yuan foi reforçado em 2025 por uma série de swaps cambiais e pela expansão do sistema CIPS em mais de 30 países.
Essa tendência ganha força dentro do BRICS+, sinalizando que a confiança no dólar como ativo neutro está sendo corroída, abrindo espaço para um sistema financeiro mais multipolar e resiliente.
9. Ignorar tecnologias disruptivas: a resposta dos sancionados
Países sancionados investem pesadamente em moedas digitais soberanas (CBDCs), blockchain para comércio exterior e bancos de desenvolvimento regionais. A China lidera com o e-CNY, enquanto o Brasil avança com o Drex. O FMI alerta para uma possível “fragmentação monetária global”, que pode enfraquecer ainda mais o sistema financeiro tradicional dominado pelo Ocidente.
10. Provocar crises humanitárias e risco de crime de guerra
Sanções punem governos, mas impactam sobretudo as populações vulneráveis, causando sofrimento social e crises humanitárias, além de escassez de alimentos, remédios e combustíveis.
No Sul Global, líderes de países como Brasil, África do Sul e Índia denunciam sanções unilaterais que bloqueiam a assistência humanitária e podem configurar crime de guerra por violar direitos fundamentais. Essa realidade mina a “legitimidade moral” do Ocidente, que impõe tais sanções.
Quando civis inocentes pagam o preço por decisões geopolíticas, a narrativa de defesa dos direitos humanos se esvazia — e o Ocidente perde apoio, credibilidade e influência, especialmente entre os países do Sul Global.
Conclusão: o xeque-mate na ordem unipolar
Em vez de apenas punirem adversários, as sanções enfraquecem o próprio sistema que as sustenta. Ao abusar do dólar como arma, os países sancionadores desvalorizam a confiança global na sua moeda e incentivam a construção de uma ordem multipolar mais resiliente, descentralizada e diversa.
A confiança é o verdadeiro lastro de uma moeda global. Quando essa confiança se quebra por decisões unilaterais, o custo não recai apenas sobre os sancionados — mas sobre todo o sistema.




