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10 de abril de 2026Expedição saiu de Salvador e foi até a Sibéria, percorrendo 24 fusos horários em 322 dias. Jornada celebra os 20 anos do BRICS com aventura, ciência, cultura e diplomacia.
Brasil e Rússia escreveram juntos um novo capítulo na história da navegação mundial.
Após cruzar oceanos e desafiar extremos do planeta, o veleiro “Fraternidade” retornou ao Brasil após concluir triunfalmente sua volta ao mundo. A chegada aconteceu em Salvador (BA) no dia 28 de fevereiro de 2026 – mesmo ponto de partida da travessia histórica, iniciada em abril de 2025.
“Acredito que mais de 700 pessoas compareceram. Para mim, isso foi um ótimo sinal de que nossa viagem era importante para o Brasil”, declarou o capitão Aleixo Belov, um dos membros da aventura ao lado de Sergei Shcherbakov.
A expedição celebra o 20º aniversário do BRICS e já antecipa comemorações do bicentenário, em 2028, das relações diplomáticas entre Brasil e Rússia.
Rota desafiou limites do planeta
Além da clássica circunavegação pelos 24 fusos horários, a tripulação do Fraternidade navegou do ponto continental mais setentrional da Terra — o Cabo Chelyuskin (paralelo 78 norte) — até um dos pontos mais meridionais do planeta, o lendário Cabo Horn, na costa da Terra do Fogo, na América do Sul.
Assim, a expedição desbravou os mares não apenas em seu perímetro, mas também de norte a sul.
“A bordo, levamos mais de 6.000 litros de água e cerca de 7.000 litros de combustível diesel, dois motores de 240 cavalos de potência e velas. Durante toda a expedição, rasgamos apenas uma vela, durante uma forte tempestade, mas colocamos outra e continuamos nosso caminho”, revelou o capitão Aleixo.

Os capitães
O capitão Aleixo Belov é um navegador brasileiro nascido na União Soviética e que imigrou para o Brasil quando ainda era criança. Ele compartilhou o sonho que tinha de viajar até a Sibéria:
“A Sibéria é um lugar especial. Para mim, é uma viagem incomum, única. Nenhum veleiro brasileiro jamais havia navegado por lá. Eu realmente queria fazer esta viagem. E graças ao meu contato com Sergei Shcherbakov, tudo se tornou possível.”
Aleixo Belov
Ele admitiu que seu maior medo era o gelo na Rota Marítima do Norte:
“Estávamos constantemente preocupados: será que o gelo nos permitiria passar? Eu estava tão preocupado que levei muito mais comida no iate do que precisávamos: chocolate, biscoitos, frutas secas, leite — tudo que não precisava ser cozido, caso ficássemos presos no gelo. Graças a Deus, conseguimos passar. Era o único lugar no mundo onde eu nunca tinha estado antes e agora eu estive lá”, comemorou.
Já o capitão Sergei Shcherbakov compartilhou suas impressões ao concluir a viagem:
“Navegamos ao redor do mundo, do extremo norte ao extremo sul da nossa rota. Isso é uma grande conquista: conseguimos. E, francamente, por um lado, há a alegria da realização e, por outro, uma sensação de vazio. Hoje é essencialmente nosso último dia no Brasil; tudo ficou para trás, o objetivo foi alcançado. Este foi o objetivo de nossas vidas durante este período. E quando um objetivo como esse é alcançado, chega o momento em que precisamos pensar em algo novo. Tenho certeza de que Aleixo e eu pensaremos nos próximos passos.”
Sergei Shcherbakov
Aventura será eternizada no cinema e literatura
Aleixo Belov está preparando um documentário, com imagens registradas por dois cinegrafistas profissionais que trabalharam constantemente a bordo.
Além disso, o próprio capitão planeja escrever seu décimo quarto livro sobre o mar e viagens. Ele enfatizou que vê a expedição como um caminho aberto para a próxima geração de velejadores brasileiros:
“Naveguei por lugares com oceanos quentes, com clima ameno, e cheguei ao extremo norte e ao extremo sul. Agora posso dizer: estive em todos os lugares. Abri o caminho para os jovens brasileiros, mostrei-lhes o caminho. (…) Tenho 83 anos, não pretendo mais fazer expedições como esta. Agora desejo que os jovens leiam livros e nos sigam. Convido todos para o mar.”
Aleixo Belov
Fraternidade: uma embarcação feita sob medida
Aleixo também descreveu como se preparou para esta jornada e seu veleiro, Fraternidade, que deu nome à expedição:
“Eu mesmo projetei e construí este veleiro. Viajei bastante pela Europa, observando projetos, conversando com projetistas, mas não consegui encontrar um único barco que realmente me agradasse. Então decidi construir o meu próprio.”
Aleixo Belov
O Fraternidade tem 21,5 metros de comprimento. É considerado um iate ideal para ventos fortes e ondas grandes, além de contar com sistema de aquecimento e isolamento especial para reduzir o frio.
Ciência, cultura e legado para a humanidade
Mais do que uma aventura épica, a expedição coletou dados valiosos sobre as condições do gelo, mudanças meteorológicas e aspectos hidrológicos da Rota Marítima do Norte, além de realizar monitoramento ambiental e censos da fauna. Esse material vai virar recomendações práticas para ajudar no planejamento de futuras navegações na região.
A experiência também fortaleceu a colaboração internacional: os laboratórios científicos russos estão abertos para receber pesquisadores do mundo todo, e o Centro de Expedições e Turismo da Sociedade Geográfica Russa, instalado na Fundação Aleixo Belov, em Salvador, já é um ponto de apoio para novos projetos.
Paralelamente, a viagem teve um lado humano e cultural. Nos portos onde a embarcação parou, a equipe foi recebida com festa, comidas típicas e visitas a museus, coletando registros etnográficos e histórias locais.
Ao final de tudo, a tripulação se encantou com a receptividade dos povos e descobriu afinidades entre as culturas – uma prova de que ciência e aventura também aproximam e unem os povos.











