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3 de maio de 2026Guerra no Irã foi um divisor de águas e impactou a hegemonia da moeda usada no comércio de petróleo. Confira evidências e entenda como o Brasil se posiciona no cenário.
Por décadas, o dólar foi a moeda mais forte do mundo graças a um acordo informal com os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita. Em troca de proteção militar dos EUA, eles passaram a vender petróleo exclusivamente em dólares e a investir os lucros em títulos da dívida americana (Treasuries). Esse fluxo de dinheiro — conhecido como reciclagem de petrodólares — permitiu que os americanos se endividassem de forma barata, gastando mais do que arrecadavam sem que os juros disparassem.
Agora, EUA e Israel acabaram sabotando o próprio sistema ao causar efeito oposto ao desejado: a guerra contra o Irã expôs a fragilidade da proteção americana e acelerou a busca por alternativas ao dólar. Subestimar o poder iraniano se provou um erro catastrófico.
A Bloomberg Opinion publicou artigo que resume o momento: “The Iran War Just Broke the Petrodollar“ (“A guerra do Irã acabou de quebrar o petrodólar”). E nesta semana, o Financial Times endossou a tese: “Iran war has exposed the weakness of the dollar“ (Guerra no Irã expôs fraqueza do dólar”). Publicações sobre o tema surgem a todo momento.
A seguir, confira 10 fatos que evidenciam a mudança.
1. Fechamento do Estreito de Ormuz colapsou fluxo de petróleo
O Estreito de Ormuz – por onde passa de 20% a 30% do petróleo mundial – permanece fechado e restrito. O volume de barris caiu de 20 milhões para menos de 2 milhões por dia. A Agência Internacional de Energia (AIE) classificou a interrupção como a maior da história. Sem fluxo de petróleo, não há petrodólares para reciclar.
2. Irã cria “pedágio de Teerã” – e só aceita yuan, stablecoins e Rial Iraniano
A Guarda Revolucionária do Irã exige US$ 1 por barril (US$ 2 milhões por superpetroleiro) de quem cruza o Estreito – o pagamento é aceito em yuan, stablecoins e Rial Iraniano. O parlamento iraniano já aprovou um projeto de lei formalizando o pedágio. O elo entre petróleo e dólar foi rompido na rota mais estratégica do planeta, levando grandes importadores – como China, Índia e Europa – a diversificar as formas de pagamento.
3. Entendimento entre EUA e Arábia Saudita de 1974 enfraqueceu
O pacto do petrodólar nunca foi um contrato assinado, mas sim um acordo informal de cooperação. Em 2024, a Arábia Saudita não renovou esse entendimento e adotou postura mais flexível. O país ainda vende petróleo em dólares, mas está aberto a outras moedas — especialmente o yuan (China é seu maior cliente) — e vem desenvolvendo infraestrutura para um sistema de múltiplas moedas.
4. Arábia Saudita se conecta ao mBridge – infraestrutura para vender petróleo em yuan já existe
O Banco Central Saudita (SAMA) aderiu ao projeto mBridge, plataforma de moedas digitais de bancos centrais desenvolvida em parceria com China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos. O sistema permite liquidações internacionais mais rápidas e diretas usando CBDCs (moedas digitais emitidas por bancos centrais), sem depender do SWIFT.
5. Irã pede que a China se torne garantidora de segurança no Oriente Médio
O embaixador do Irã na China, Abdolreza Rahmani Fazli, declarou que seu país espera que a China ajude a garantir segurança na região. Em março, o Ministro das Relações Exteriores Wang Yi já havia telefonado para chanceleres da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, em um sinal claro de que o eixo de poder começa a se deslocar. Posteriormente, o Ministério das Relações Exteriores da China anunciou que Pequim espera que todas as partes resolvam disputas por meio de “diálogo e negociação”.
6. Proteção dos EUA virou fardo perigoso para aliados
Ataques iranianos danificaram infraestrutura energética, aeroportos, bases militares, entre outros alvos no Golfo. Os EUA não conseguiram proteger seus aliados, evidenciando que a confiança no acordo de “petróleo por segurança” foi abalada.
7. Empresário bilionário dos Emirados viralizou ao expor insatisfação contra Trump
Khalaf Ahmad Al Habtoor, presidente do Grupo Al Habtoor, postou uma “carta aberta a Trump” no X que viralizou em março de 2026. A pergunta foi direta: “Quem lhe deu autoridade para arrastar nossa região para a guerra com o Irã?”. Ele criticou a falta de cálculo sobre os danos colaterais e afirmou que os países do Golfo foram colocados no centro de um perigo que não escolheram. A insatisfação não é apenas dos governos – é também da elite empresarial e da opinião pública.
8. Modelos de risco já precificam dólar mais fraco
Bancos centrais, fundos soberanos e bancos de investimento já consideram um dólar mais fraco em suas previsões. Segundo o FMI, a participação do dólar nas reservas globais caiu para 56,77% – um dos níveis mais baixos desde 1995. “O Privilégio exorbitante das Treasuries e do dólar desapareceu”, declarou em entrevista ao Valor o economista Ricardo Reis – professor da London School of Economics (LSE), membro da Academia Britânica e consultor do Federal Reserve de Richmond.
9. Mundo reduz exposição à dívida em dólar e amplia uso do yuan
A emissão de panda bonds – títulos em yuan emitidos por estrangeiros na China – triplicou em março de 2026, somando 27,8 bilhões de yuan (US$ 4 bilhões). O financiamento em yuan por tomadores estrangeiros atingiu 218 bilhões de yuan (US$ 31,6 bilhões) nos primeiros meses do ano, superando o total de 2025. O custo é 60% inferior ao do dólar: juros chineses a 1,82% contra 4,46% das Treasuries americanas.
10. Nada será como antes
Os fatos acima mostram que a erosão do petrodólar já é uma realidade e, a cada dia, haverá novos sinais. A guerra no Irã abriu uma caixa de Pandora. Seremos surpreendidos por notícias disruptivas. É a História sendo escrita em tempo real diante de nossos olhos. O fim da hegemonia do dólar será gradual, mas a direção é clara: o mundo se tornou multipolar, com yuan, ouro, moedas digitais e outras divisas dividindo espaço com a moeda americana.
E o Brasil nisso tudo?
Por ser exportador de petróleo longe da área do conflito, o Brasil está surfando essa onda. O Real é a moeda que mais se valorizou em 2026. Enquanto isso, o dólar ruma para a faixa dos R$ 5, menor nível em dois anos.
Em plena guerra no Irã, o Ibovespa bateu alta histórica (fechando a 197.325 pontos pela primeira vez em 10/4/2026) e registrou o 16º recorde deste ano. O desempenho é reforçado pela entrada contínua de capital estrangeiro, que vê o país como “porto seguro” dos emergentes. A Petrobras — maior peso do índice — acumula alta de + 59% em 2026, sendo grande protagonista do rali.
Além disso, as exportações brasileiras de petróleo saltaram 70% em março, garantindo superávit comercial de US$ 6,4 bilhões no mês e sinalizando futuras entradas financeiras robustas. Isso tudo gera ao Governo receita extra bilionária que alivia as contas públicas, reduzindo preocupações do mercado.
Em meio à tensão geopolítica no mundo, o país também tem se destacado no ranking de Investimentos Estrangeiros Diretos, que é o capital produtivo alocado em novos projetos, fábricas, escritórios, infraestrutura, os quais geram empregos, renda e arrecadação. Evidência disso saiu hoje no Valor (10/4/2026): Brasil sobe 3 posições em ranking de Investimento Direto no País.
Resumindo: o pacto do petrodólar que sustentou a hegemonia americana por 50 anos foi abalado e dificilmente haverá como voltar atrás. Em meio à tamanha disrupção, o Brasil consegue a proeza de surfar uma grande onda, colhendo os frutos do novo mundo multipolar.






