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2 de julho de 2025Diversos países têm reforçado suas posições em ouro para reduzir a dependência do dólar americano.
A escalada das tensões geopolíticas desde 2022, marcada por guerras, sanções econômicas e confiscos, tem acelerado uma mudança monetária internacional. Nesse cenário, países do BRICS como China, Rússia e Índia tem ampliado suas reservas em ouro a um ritmo recorde, refletindo a busca crescente por segurança.
Essa estratégia é uma resposta direta ao uso do dólar como ferramenta de coerção, à fragilidade institucional do sistema SWIFT e ao risco real de congelamento de ativos internacionais, como demonstrado com a Rússia em 2022. As consequências das drásticas medidas, no final, acabaram abrindo caminho para um sistema financeiro multipolar, lastreado em ativos reais e apoiado por moedas digitais estatais (CBDCs).
Demanda global por ouro em 2025
O World Gold Council (WGC), principal organização global para o mercado de ouro, monitora a oferta e a demanda do metal, fornecendo dados confiáveis para investidores, governos e bancos centrais. Com sede em Londres, o WGC é referência mundial, ajudando a entender como o ouro influencia a economia global. De acordo com seu relatório mais recente (abril de 2025), a demanda por ouro no primeiro trimestre atingiu 1.206 toneladas, maior volume para o período desde 2016, impulsionada por bancos centrais, investidores e setores como tecnologia.
Além das compras de 244 toneladas por bancos centrais, como os do BRICS (China, Rússia e Índia à frente), outros setores destacam-se na demanda por ouro. Fundos de investimento (ETFs) lideraram o crescimento, com 552 toneladas compradas, reflexo de incertezas geopolíticas e volatilidade no mercado de ações. O varejo, especialmente na China, também foi forte, com 325 toneladas em barras e moedas, enquanto o setor tecnológico usou 80 toneladas, puxado pela expansão da inteligência artificial.
O relatório sugere que o ouro está mais valorizado devido a fatores como tensões globais, fraqueza do dólar e medo de tarifas comerciais, como as propostas pelos EUA.
Estopim: dólar como arma política
O confisco de aproximadamente US$ 300 bilhões em reservas internacionais da Rússia por parte dos Estados Unidos e aliados europeus, após a invasão da Ucrânia em 2022, foi um divisor de águas. Paralelamente, a exclusão de bancos russos do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) evidenciou o grau de controle geopolítico sobre um sistema que deveria ser neutro.
Essas ações geraram um alerta global: qualquer país que entre em desacordo com os interesses políticos do G7 pode ver seus ativos congelados ou seu sistema financeiro desconectado.
Outro fator foi a política monetária expansionista adotada pelo Federal Reserve, que injetou mais de US$ 3 trilhões na economia entre 2020 e 2021 para combater os efeitos da pandemia, segundo dados oficiais do próprio Fed. O temor global de desvalorização do dólar como reserva de valor se intensificou.
O declínio da confiança no dólar
Esses eventos coincidem com uma tendência já detectada por analistas: a perda de hegemonia do dólar.
Dados do FMI mostram que a participação do dólar nas reservas internacionais caiu de 70% em 2000 para 57% em 2024. Ao mesmo tempo, moedas como o yuan e o euro ampliaram participação, e a demanda por ouro voltou a níveis históricos.
Segundo o World Gold Council (WGC), os bancos centrais compraram mais de 1.136 toneladas de ouro em 2024, o segundo maior volume da história. O preço do ouro refletiu essa demanda, atingindo US$ 3.444,60/oz em junho de 2025, uma valorização de 47,17% em 12 meses.
Por que os BRICS acumulam ouro?
1. Proteção contra sanções
O ouro não depende de intermediários financeiros internacionais. Diferente de reservas em dólar, não pode ser congelado por governos estrangeiros, nem controlado por redes como o SWIFT.
2. Base para CBDCs
As moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), como o e-CNY (China) e o Drex (Brasil), poderão usar o ouro como lastro parcial, garantindo credibilidade e proteção contra inflação de base monetária. Segundo o Banco Central do Brasil, o Drex está sendo desenhado com possibilidade de integração internacional e conversibilidade gradual.
3. Sistema financeiro multipolar
Ferramentas como o BRICS Pay (plataforma de pagamentos em moedas locais) e o BRICS Bridge (conector de CBDCs) avançam como alternativas ao SWIFT. O New Development Bank (NDB) já estuda usar ouro como ativo de compensação em transações bilaterais.
4. Hedge contra a desvalorização do dólar
Com a projeção de queda do dólar para 40% das reservas globais até 2035 (segundo o Institute of Monetary and International Policy – IMI), o ouro funciona como proteção estratégica de longo prazo.
Possíveis impactos
Curto Prazo (2024–2026)
- Valorização do ouro e maior alocação de reservas pelos bancos centrais.
- Aumento da liquidez de mercados regionais em moedas locais.
Médio Prazo (2026–2030)
- Expansão do BRICS Pay com compensação bilateral e uso de ouro como ativo de segurança.
- CBDCs parcialmente lastreadas ganham espaço, inclusive em acordos com países fora do bloco.
Longo Prazo (2030–2035)
- Sistema híbrido (ouro + CBDCs) podendo substituir gradualmente o dólar em reservas estratégicas.
- Dólar pode cair abaixo de 40% das reservas internacionais.
O papel do Brasil na nova arquitetura global
Embora ainda tímido em volume absoluto de ouro (com cerca de 130 toneladas de ouro, segundo dados do Banco Central), o Brasil tem relevância estratégica no redesenho financeiro por diversas razões:
- Estabilidade institucional no Banco Central e liderança no desenvolvimento de CBDCs com o Drex.
- Neutralidade diplomática, que o posiciona como possível mediador entre blocos.
- Potencial energético e mineral, que fortalece o real como moeda de comércio em setores estratégicos.
- Infraestrutura tecnológica e industrial (a exemplo da Embraer), posicionando o Brasil como potência inovadora nas cadeias produtivas multipolares.
Um novo capítulo do sistema monetário global
Para resumir, os BRICS tem comprado ouro para criar um sistema financeiro menos dependente do dólar. Esse movimento combina moedas digitais controladas por bancos centrais (como o Drex, no Brasil), transações feitas diretamente em moedas locais (como real ou yuan) e o ouro, que é um ativo seguro e aceito mundialmente, especialmente em momentos de crise.
Para o Brasil, esse é um momento de oportunidade. Nos próximos meses e anos, poderemos ver o país aumentar suas reservas de ouro para proteger a economia, fortalecer o Drex (futura moeda digital que será lançada e usada em transações internacionais) e usar sua neutralidade diplomática para atuar como ponte entre nações, ganhando influência no novo cenário global.




