
BYD no Brasil: história da gigante chinesa
3 de maio de 2026Especialistas estão em alerta: o mercado está subestimando o choque do petróleo e muitos afirmam que o pior nem teria começado.
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã causou a maior crise de energia da história. Ela eclodiu quando países estavam relaxados, até então acreditando na tese de que haveria “excesso de oferta de petróleo” (o chamado “oil glut”).
Ao longo de 2025 até a véspera da guerra, analistas repetiam que o Brent cairia para US$ 55 – um temor que, por si só, já derrubava os preços.
O mundo pego de surpresa
O planeta vivia a ilusão de que não havia risco geopolítico no radar. A própria U.S. Energy Information Administration (EIA), autoridade americana de energia, previa preço mais baixo em 2026 e 2027, alegando que os estoques estariam crescendo mais do que o consumo (EIA forecasts lower oil prices in 2026 and 2027 due to persistent stock builds). No final, o oposto aconteceu.
Faltou petróleo no mundo e, na máxima até o momento, o Brent à vista chegou a bater US$ 144,42 por barril, enquanto o contrato de Brent futuro atingiu US$ 126,41 por barril.
Atualmente, enquanto o mercado futuro tenta precificar certa acomodação nos preços da commodity, executivos do setor e renomados profissionais alertam que a situação deve se agravar, afirmando que a estabilização vai demorar bem mais do que se espera.
Evidências que confirmam esta visão
1) Estoques globais de petróleo nas mínimas históricas
Mesmo se a disrupção acabasse hoje, não haveria excesso de oferta imediata para fazer o preço cair tanto. Os estoques estão nos níveis mais baixos em quase 8 anos — equivalente a cerca de 101 dias de demanda mundial, podendo cair para 98 dias até o fim de maio (segundo relatório do Goldman Sachs de 4 de maio de 2026). Em alguns países, no entanto, a situação já é crítica, beirando o colapso.
2) Reservas estratégicas de petróleo sendo queimadas
Nações consomem o último colchão de segurança (que dura dias a semanas) para evitar uma disparada maior nos preços atuais. Caso a guerra se prolongue e as reservas estratégicas se esgotem, os preços poderiam disparar para níveis inimagináveis.
Em 10 de maio de 2026, a Saudi Aramco — maior empresa de petróleo do mundo — alertou que os estoques de combustíveis (principalmente gasolina e querosene de aviação) rumavam para níveis criticamente baixos. Segundo o CEO Amin Nasser, caso o Estreito de Ormuz reabrisse imediatamente, o reequilíbrio do mercado poderia levar meses. Ele advertiu ainda que, se o bloqueio se estender por mais “algumas semanas”, a normalização só deverá ocorrer em 2027.
Sábia foi a China, que aproveitou as baixas da commodity em 2025 e início de 2026 para fazer compras recordes de petróleo cru (11,55 milhões de barris por dia). O resultado? A maior reserva estratégica de petróleo do mundo com cerca de 1,4 bilhão de barris totais estocados até o final de 2025, segundo estimativa da EIA.
3) Alta temporada no hemisfério norte
Esta é uma época do ano em que as refinarias acumulam estoque antes da temporada de pico de férias e verão no hemisfério norte (“flying and driving season“), visando atender ao forte aumento da demanda por viagens de carro e avião.
“Mesmo se o conflito terminar no mês de maio, sairíamos com estoques claramente muito baixos”, disse recentemente o diretor executivo da TotalEnergies, Patrick Pouyanné.

Sistema sob estresse extremo: entrar na “driving season” com estoques criticamente baixos criará a tempestade perfeita para os preços.
4) Infraestrutura do Golfo Pérsico destruída
“Os ataques destruíram ou danificaram refinarias, terminais de exportação, plantas de gás, campos de produção e oleodutos na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait. Segundo a Rystad Energy, os prejuízos podem chegar a US$ 58 bilhões, com mais de 30 instalações gravemente afetadas, além de uma crise global por falta de equipamentos.
A recuperação completa da infraestrutura demandará investimentos massivos e levará meses a anos, mesmo se o Estreito de Ormuz for reaberto imediatamente. Isso significa que parte significativa da oferta global de petróleo e GNL continuará comprometida por longo tempo após o fim do conflito.
5) Reposição massiva das reservas estratégicas
Quando o conflito terminar, governos e empresas correrão para reabastecer reservas – sustentando a demanda elevada por muito tempo. Mesmo que o preço corrija no início devido à redução do prêmio de risco, ele deve se ancorar em patamar mais alto do que antes da crise, com alta volatilidade e riscos geopolíticos ainda presentes.
Impacto disruptivo já é visível no mundo
O bloqueio do Estreito de Ormuz (que normalmente transporta 20% do petróleo mundial) causa reação em cadeia na economia global, principalmente nos países mais dependentes de importações.
- Inflação em alta
- Escassez e racionamento de combustível
- Risco de elevação de taxas de juros
- Voos cancelados e redução de rotas
- Semana de 4 dias
- Home office obrigatório
- Riscos em cadeia, a exemplo de fertilizantes, agricultura e segurança alimentar global
- Convulsões sociais
- Risco de recessão
Cisne negro?
A crise energética aconteceu quando o mundo estava de guarda baixa. É como se um tsunami tivesse chegado quando as pessoas estavam na praia tomando caipirinha.
Embora o mundo pareça estar ainda em estágio de negação, o choque do petróleo reúne características de um cisne negro. Foi raro, imprevisível (inclusive para os planejadores da guerra), de altíssimo impacto e com potencial de desencadear crises em efeito dominó.
A onda veio de forma inesperada e o choque do petróleo (que alguns chamam de “passageiro”) pode ser apenas a primeira onda. A pergunta que fica é: o pior ainda está por vir?
Imprevisibilidade do mundo
Nem mesmo os EUA e Israel imaginavam a forma contundente como o Irã os retaliaria. Os países agressores ficaram perplexos com o fechamento do Estreito de Ormuz, a destruição de bases americanas nos países vizinhos e o uso de táticas de guerra assimétrica de quarta geração.
Em recente entrevista à TV americana, o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu, reconheceu que Israel não previa o fechamento do Estreito de Ormuz. “Ninguém tinha previsão perfeita sobre a capacidade do Irã de bloquear o Estreito de Ormuz”, disse, admitindo que o problema “foi entendido à medida que os combates avançavam”.
Enfim, subestimar o oponente e os riscos geopolíticos provou ser um movimento equivocado no tabuleiro geopolítico global.
Não é possível prever todas as consequências globais dessa guerra irresponsável que abalou placas tectônicas do mundo. A única certeza é que nada será como era antes. Aperte os cintos.
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